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Notas à Margem – Arquivo

Carina Tavares, estudante de Design de Comunicação

Qualquer pessoa que saiba um pouco sobre a história da nossa cultura, a história do declínio dos valores, do desaparecimento do espírito europeu, e que analise a nossa sociedade contemporânea não poderá deixar de concluir que Albert Camus e Thomas Mann tinham toda a razão quando, em 1947, declararam que o fascismo é um fenómeno político que não desapareceu com o fim da guerra e que podemos agora descrever como a politização da mentalidade do homem-massa rancoroso. É a política utilizada por demagogos cujo único objectivo é o reforço e alargamento do próprio poder. Para esse efeito, explorarão o ressentimento, designarão bodes-expiatórios, incitarão o ódio, esconderão o vazio intelectual por trás de slogans e insultos roucos, e, com o seu populismo, elevarão o oportunismo político a uma forma de arte.

– O Eterno Retorno do Fascismo, Rob Riemen, 2012.

Para o homem-massa, a vida deve ser sempre fácil e abundante; não reconhece a natureza trágica da existência. Tudo lhe é permitido pois não existem restrições. O esforço intelectual é desnecessário. O homem-massa está cheio de si e comporta-se como uma criança mimada. Não está nos seus hábitos escutar, avaliar criticamente as sua opiniões ou ter em conta as outras pessoas. Esta atitude reforça nele o sentimento de poder, o desejo de controlar. Só ele e os seus congéneres contam, os outros devem adaptar-se. Por conseguinte, tem sempre razão e não precisa de se justificar. Pouco habituado à linguagem da razão e sem vontade de aprender, só conhece uma linguagem, a do corpo: a violência. Tudo o que seja diferente e irrelevante aos seus olhos não tem o direito de existir.

– O Eterno Retorno do Fascismo, Rob Riemen, 2012.

Nenhum homem é uma ilha, sozinho em si mesmo; cada homem é parte do Continente, uma parte do todo. Se um seixo for levado pelo mar, a Europa fica menor, como se fosse um promontório, assim como se fosse uma parte dos seus amigos ou mesmo sua; a morte de qualquer homem diminui-me, porque eu sou parte da Humanidade; e por isso, nunca procures saber por quem os sinos dobram, eles dobram por ti.

– John Donne, poeta e padre anglicano (excerto do qual é retirado o título para a obra de Ernest Hemingway, Por Quem os Sinos Dobram)

From the first moment the air of the place made us uneasy, we felt irritable, on edge; then at the end came the shocking business of Cipolla, that dreadful being who seemed to incorporate, in so fateful and so humanly impressive a way, all the peculiar evilness of the situation as a whole. Looking back, we had the feeling that the horrible end of the affair had been preordained and lay in the nature of things; that the children had to be present at it was an added impropriety, due to the false colours in which the weird creature presented himself. Luckily for them, they did not know where the comedy left off and the tragedy began; and we let them remain in their happy belief that the whole thing had been a play up till the end.

– Mário e o Mágico, Thomas Mann, 1934.

Ratos judeus e Gatos alemães

Maus_capa do primeiro volume_1986_Pantheon Books

– Maus, Capa da primeira edição, Pantheon Books, Art Spiegelman, 1986-1991.

– Entrevista a Art Spiegelman sobre a sua obra.

Porque ele sabia o que esta multidão eufórica ignorava e se pode ler nos livros: o bacilo da peste não morre nem desaparece nunca, pode ficar dezenas de anos adormecido nos móveis e na roupa, espera pacientemente nos quartos, nas caves, nos lenços e na papelada. E sabia também que viria talvez o dia em que, para desgraça e ensinamento dos homens, a peste acordaria os seus ratos e os mandaria morrer numa cidade feliz.

– A Peste, Albert Camus, 1947.

Se queres entender, entender realmente, como as coisas são neste mundo, tens de morrer pelo menos uma vez. E como essa é a lei, é melhor que morras enquanto és novo, enquanto ainda tens tempo para recuperares e começar de novo.

– O Jardim dos Finzi-Contini, Giorgio Bassani, 1987.

Não é necessária muita probidade para que um governo monárquico ou um governo despótico se mantenham ou se sustentem. (…) Mas num Estado popular precisa-se de um motor a mais, que a VIRTUDE. (…) [Quando] num governo popular as leis tiverem cessado de ser executadas, como isto só pode vir da corrupção da república, os Estado já estará perdido.

Quando cessa essa virtude, a ambição entra nos corações que estão prontos a recebê-la, e a avareza entra em todos. Os desejos mudam de objceto; o que se amava nãos e ama mais; era-se livre com as leis, quer-se ser livre contra elas; cada cidadão é como um escravo fugido da casa do seu senhor; o que era máxima é chamado rigor; o que era regra chamam-no incómodo; o que era cuidado chamam-no temor.

– Espírito das Leis, Montesquieu, 1748.

Se se procura saber em que consiste precisamente o maior dos bens, que deve ser o objectivo de todo o sistema de legislação, achar-se-á que se reduz a estes dois objectivos principais: a liberdade e a igualdade. A liberdade, porque toda a independência particular é outra tanta força subtraída ao corpo do Estado; a igualdade, porque a liberdade não pode subsistir sem ela.

– O Contrato Social, Jean-Jacques Rousseau, 1762.

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